quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Um estudo sobre o complexo Lucy, de Luc Besson

Por Camila Picheth | Autora convidada
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Lucy é uma anormalidade dentro dos padrões dos blockbusters. O filme teve uma ação de marketing pesada, principalmente se tratando de uma produção envolvendo Scarlett Johansson e Morgan Freeman. Isso fez com que muita gente fosse assistir o novo lançamento no cinema. Isso também fez com que a maioria das pessoas comprasse o ingresso com uma ideia completamente errônea do que esperar da trama.  É importante ressaltar que esse não é um filme de ação/ficção científica. Todos que sentaram na poltrona esperando ver Lucy ganhar super poderes e sair batendo em vilões – como mais um filme da Marvel – saíram do cinema falando mal da história até perder o fôlego. Essa trama é quase puramente sobre física quântica, filosofia e reflexão. A parte da “ficção-científica” depende de quanto a sua mente está aberta.
Isso não é uma crítica do filme. Não vou falar sobre construções de cena, trabalho do diretor ou qualidade dos efeitos especiais. O que procuro fazer com esse texto é clarificar um pouco as ideias mostradas no filme. E mostrar que os “absurdos” que muitos falaram mal, podem não ser apenas resultado de uma “pira que deu ruim”. E aqui é FUNDAMENTAL que se tenha conhecimento de física quântica. Podendo ser definida como a física de possibilidades, essa é uma área formada por muitas teorias, hipóteses e intuições, pois a maioria das leis da física tradicional não funciona com partículas subatômicas, e pouco pode ser “comprovado cientificamente”. Mas não se engane, só porque a ciência atual não consegue provar certos conceitos, não significa que isso seja falsa ciência. Apenas mostra que ainda temos um longo caminho a percorrer como pesquisadores. Vale lembrar que pessoas foram torturadas e queimadas por dizerem coisas como “a Terra não é plana” e que “não somos o centro do universo”. Coisas que atualmente são absolutamente evidentes, mas que anos atrás eram motivo de humilhação e morte. “Ignorância traz caos, não conhecimento”.
 Vamos começar falando sobre o tal conceito dos 10%. Vi muita gente criticando o filme antes de assistir ou desistindo de ir ao cinema porque os cientistas já provaram que nós usamos 100% do cérebro, e que essa ideia é ultrapassada. Mas é importante enxergar isso apenas como referência para podermos acompanhar o desenvolvimento da trama. De um ponto de vista cegamente científico, pode até ser que de fato estamos usando os 100%. No entanto, isso não quer dizer que ele esteja completamente desenvolvido. Lendo uma crítica por aí, houve um comentário em que a pessoa comparou o corpo de um indivíduo sedentário e de um atleta. Ambos utilizam todo o seu corpo no dia a dia, mas não precisa dizer quanto mais capaz o corpo do atleta é. Acho que não há melhor analogia para mostrar a diferença entre utilização e capacitação.
 Se você nunca teve interesse ou conseguiu ler um livro sobre a física quântica, não tem problema. Porque a televisão não é formada apenas de lixo, como alguns adoram dizer. Você só precisa assistir certos episódios das séries Cosmos e Trough the Wormhole (apresentada, inclusive, pelo Morgan Freeman :D) pra ter ideia da loucura que é essa área. E, como eu disse antes, da quantidade de possibilidades que ela apresenta. Acontece que essas partículas extremamente pequenas não se comportam do mesmo jeito que as coisas que podemos ver ao olho nú. E isso deixa mesmo os cientistas mais renomados perdidos. Lá no primeiro episódio de Cosmos, o astrofísico e apresentador Neil deGrasse Tyson vai compactar a história do planeta Terra em um calendário de um ano. Sabe quando que os humanos vão aparecer na superfície do planeta? Só no último minuto do dia 31 de Dezembro. Jesus vai surgir apenas nos últimos 5 segundos desse calendário. Ou seja, nós somos MUITO novos nesse planeta. Os cientistas já afirmaram que conhecemos em torno de 1% dos mares e, nas melhores das hipóteses, 30% das formas de vida terrestres. Imagine então o quão pouco se sabe de partículas descobertas há apenas 100 anos. Por isso é essencial não deixar os nossos paradigmas atuais afetar o pensamento crítico envolvido em teorias revolucionárias. Será que é tão impossível assim poder ter controle do seu corpo e do ambiente à sua volta?
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[este ensaio apresenta spoilers do filme] Com o segundo episódio de Cosmos assistido, você vai compreender que toda a vida na terra é apenas uma; que dividimos partes de DNA com plantas e inúmeros animais; que no nível mais profundo da realidade, nada é sólido – é apenas informação. E o mais importante: que tudo e todos são feitos de átomos. Tudo e todos são feitos do mesmo material, o qual também forma os outros planetas, estrelas e galáxias do universo. Isso significa o que? Que não é difícil imaginar a habilidade de curar feridas de balas, mudar a cor do cabelo e transformar seu corpo (ou no caso do filme, suas mãos) em qualquer outra coisa. É só uma questão de reorganizar seus átomos. Ela poderia ter se transformado em qualquer coisa ou pessoa. Os átomos são como peças de lego. Se desenvolvermos a capacidade de reorganizá-los, nenhuma forma seria impossível. Quanto ao conceito de que tudo não passa de informações, isso explica o motivo de Lucy conseguir matar os capangas do Mr. Jang mesmo com as portas do apartamento fechadas. Se tudo é informação, e ela consegue enxergar o mundo dessa maneira (lembra a cena da árvore?), a porta não é sólida e ela pode ver através. O mesmo acontece quando ela consegue identificar os problemas de saúde da sua colega. Ela só precisou “ler” o que estava errado.
A série Through the Wormhole pergunta: Vamos virar Deus? Sobre esse assunto em particular vou falar no final do texto. Mas o interessante é que o episódio mostra muitos experimentos que estão nos aproximando dessa misteriosa “entidade” que rege ainda hoje muito do comportamento humano. Um exemplo é um engenheiro que está mudando o DNA de organismos vivos para fazer o que ele mandar. Seu trabalho está no estágio de organismos como fungos, mas isso é apenas o começo. É o lance das peças de lego que comentei anteriormente, mas no lugar de mudar a forma física, muda as diretrizes de “como agir” no DNA. Também somos apresentados à pesquisas e programas que são capazes de mover matéria com o pensamento e fazer transferência de pensamentos. De novo, esses experimentos estão em estados iniciais, mas no futuro poderia possibilitar que um indivíduo não tivesse problemas em passar por vários capangas e pegar uma maleta importantíssima sem mexer um músculo. Também que pudesse “entrar” na mente de outra pessoa para recolher informações.
Nesse momento, você já estará confortável com a experiência da Dupla Fenda, a qual demostra que as partículas podem estar em dois lugares ao mesmo tempo. Isso, junto com a Dualidade Onda-Partícula (a capacidade das partículas subatômicas se comportarem como onda e partícula), sugere algo que muda tudo: Nós, o observador, podemos alterar a realidade apenas olhando para ela. É aqui que entra aquele documentário que gerou certa polêmica em 2004, Quem Somos Nós. A trama traz especialistas de várias áreas, como física quântica, metafísica e psicologia para discutir esse assunto. Será que somos apenas peões que seguem o plano daquela “entidade”? Ou nós realmente criamos nossa realidade e destino? Muitos não gostam nem de pensar nessa possibilidade, pois coloca completamente a responsabilidade da sua vida e do mundo ao seu redor em suas mãos.
Entre outros conceitos, o documentário vai te mostrar aquele experimento da água que talvez você já tenha lido sobre. Ele foi criado inicialmente pelo japonês Masaru Emoto, o qual acreditava que as moléculas de água poderiam reagir a eventos não físicos. O resultado foi que os recipientes cheios de água estimulados com pensamentos positivos– como Obrigado e Eu te amo- formam moléculas (as quais foram fotografadas) de aspecto bonito, brilhante e simétrico; enquanto as estimuladas com pensamentos negativos criam algo feio e disforme.
Essa é mais uma prova que alterar (e reorganizar?) moléculas é um poder que já possuímos e pode ser manifestado sutilmente com a capacidade de 10%. Pense nas possibilidades que uma habilidade dessas desenvolvida pode trazer. Quem Somos Nós não foi criticado somente por apresentar ideias que nunca havíamos considerado. Mas porque acaba por misturar espiritualidade com a ciência. No 2×06 de TtW, o pesquisador que afirma que tudo não passa de informações e fórmulas matemáticas, faz uma consideração final: se tudo se resumir apenas à matemática, haverá um momento em que nós iremos bater em um muro. Uma linha que não tem como ir além. E quando esse muro chega, muitos acreditam que a espiritualidade é essencial para enxergar a figura maior. O filme de Luc Besson entra nessa área em sua parte final, e aqui também vou além. Irei apresentar um físico com especialização em astrofísica e cosmologia que já conseguiu elevar a espiritualidade no patamar da ciência numa teoria que vários cientistas tentaram rebater sem sucesso.
O professor Laércio Fonseca tem 9 livros publicados e mais de 250 vídeo-palestras editados em DVD e disponíveis no Youtube. Se o vídeo “O Espírito e a Física Quântica” não o fizer considerar o assunto, nada mais o fará. Nessa palestra de 1h30, Laércio fala sobre sua formação, dá um panorama sobre a física quântica mostrando seus problemas e começa a revelar como conseguiu introduzir a consciência (ou espírito) dentro da física quântica tradicional. Para saber mais sobre o assunto, seria necessário adquirir o curso completo em DVD e/ou seu livro. Mas eu vou te contar uma parte dessa teoria toda. Aquela que explica o final de Lucy.
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Laércio, junto com outros cientistas, biólogos e neurocirurgiões, acredita que a consciência nasceu antes do corpo físico, e que ela é independente do mesmo. Depois da morte, ela continua existindo. Mas o que é essa consciência? Como o final é a parte mais importante do filme, vou me estender um pouco nesse tema. Só pra você ver que legal é a sequência toda do fim. Para poder entender o motivo da Lucy desaparecer no final e virar Deus (oi?), temos que analisar dois conceitos. O primeiro é o Entrelaçamento Quântico, o qual permite que dois ou mais objetos estejam ligados independente da sua distância. Se você dá algum estímulo a um desses objetos, o outro vai corresponder instantaneamente – sem nenhum sinal ser trocado. Essa seria a base de fenômenos como cura à distância ou explicações de como extraterrestes conseguiriam chegar na Terra mesmo tendo seu planeta de origem a milhões de anos luz. Mas não é nesse ponto que eu quero chegar. Laércio coloca que no início – antes do Big Bang – toda a matéria estava acumulada em um único ponto. Isso quer dizer que tudo que estava ali está correlacionado. Quando a grande explosão aconteceu, o universo expandiu de maneira vasta, mas tudo continuou correlacionado, pois “tempo” e espaço não conseguem quebrar essa ligação. Temos aqui a Teoria da Unidade: tudo está relacionado.
O segundo conceito, e o mais importante, é o do Campo. A lei da Interação Eletrostática prevê o campo ao redor do elétron, e sua própria fórmula mostra que esse campo é infinito. Einstein afirmava que a única realidade que existe no cosmos é o campo, e que as partículas não passam de concentrações locais desse campo. Ou seja, tudo é campo e está conectado. Para que exista essa concentração, é necessário que o elétron oscile, que ele vibre. Einstein não sabia o que exatamente oscilava. Laércio diz que é o campo em si que vibra. Utilizando equações de físicos tradicionais, o professor mostra que a massa de um objeto é igual a uma constante vezes uma frequência. Então dependendo da sua frequência, o elétron consegue se estabilizar com uma nova massa. Laércio vai se apossar então do modelo de Bohr, mas colocando diferentes níveis para a massa do objeto. Se a frequência diminui, o comprimento de onda aumenta, tornando a solidez algo menos perceptível. Há vários níveis de densidade até a frequência chegar a zero e a vibração parar, fazendo com que o objeto seja parte do campo não materializado novamente. Essa teoria forma os universos paralelos e outras dimensões, inclusive os chamados planos espirituais. Os espíritos seriam uma consciência em outro plano menos denso que o nosso, fazendo com que eles não sejam visíveis para nós.
Tendo tudo isso em mente, podemos finalmente seguir para o final do filme. O que acontece quando há a explosão da bazuca é que a consciência de Lucy é atirada para fora de seu corpo biológico. Como o tempo não é uma realidade do universo, e ela é agora apenas consciência no cosmos, ela tem noção de tudo que já foi, é e será na história do nosso planeta. No caso da sequência de Besson, ele achou melhor explorar a visão dela apenas do passado. E como um bloco de conhecimento não ficaria bonito na tela do cinema, ele a fez testemunhar a história como se estivesse dando o comando de voltar a uma interface invisível.
Nesse momento, Lucy já deixou de ser um humano normal há muito tempo, assim como parou de vibrar como um. Houve uma grande liberação de energia pela sua boca, e o remanescente está sendo usado para a fabricação do pen drive super poderoso. Seu corpo está aos poucos parando de vibrar na mesma frequência do planeta Terra, até que finalmente, ele para. O que acontece quando a frequência chega em zero? O objeto vira campo. Lucy voltou a ser o campo imaterial que está presente em todos os cantos do universo. Ela está em todo o lugar.“Mas você disse que ela virava Deus no fim!”. Pois então. Muitos acreditam que todo esse campo é uma entidade consciente. A única consciência que existia antes do Big Bang e aquela que está presente atualmente em todo o lugar. Essas pessoas chamam esse campo de Deus. A energia onisciente. Por isso a Bíblia diz que Deus está dentro de nós. Se o campo é Deus e todos os objetos são manifestações de campo, nós somos basicamente Deus também. Só que em um nível vibratório afastado da energia pura que “Ele” é. Quando Lucy se desfaz do corpo físico e passa a vibrar numa frequência diferente, ou melhor, passa a não vibrar, ela faz parte do todo. Ela estica seu dedo para tocar numa criatura mais densa e com menos conhecimento do cosmos. Assim como a pintura da capela Sistina.
É por isso também que em certa parte do filme ela diz que ser humano é algo primitivo. Todos nós, todas nossas consciências, pertencem a esse lugar onisciente – sem certos sentimentos e sensações. O corpo humano biológico é primitivo (como o de todos os animais), e quando a consciência se junta com o corpo, ela esquece o conhecimento que tinha antes e experiencia as características do ser denso com seus padrões de comportamento existentes em toda a vida terrestre (lembra dos inserts da vida animal no começo do filme?). Ao se afastar dos obstáculos da biologia e se aproximar do conhecimento universal, você se torna um ser “ascendido”, que acaba por perder a característica da humanidade (para o melhor ou pior).
Então o objetivo de “passar informação para frente” é coerente nessa visão. Você eleva o nível da sua consciência com o conhecimento aprendido, e o passa para frente para que os outros possam fazer o mesmo. Louco tudo isso, né? E olha que esse texto enorme é a parte mais superficial do topo do iceberg. Quando você começa a mergulhar no mundo da física quântica, as coisas ficam cada vez mais bizarras. Mas não significa que deixe de ser real (dai a gente começa a debater o que é o real). Espero ter clarificado um pouco das ideias envolvidas no filme, e que tenha despertado certa curiosidade para saber mais sobre o assunto. Se mesmo assim você achou Lucy uma porcaria (e esse texto também), OK. É a opinião de cada um. Embora sinceramente espero que não seja o caso :).
Via http://www.ligadoemserie.com.br/2014/09/ensaio-lucy/

"Estamos à beira da total auto-destruição?"


Existem mais processos de longo prazo apontando na direção, talvez não da destruição total, mas ao menos da destruição da capacidade de uma vida decente
27/01/2015
Por Noam Chomsky,
O que o futuro trará? Uma postura razoável seria tentar olhar para a espécie humana de fora. Então imagine que você é um extraterrestre observador que está tentando desvendar o que acontece aqui ou, imagine que és um historiador daqui a 100 anos - assumindo que existam historiadores em 100 anos, o que não é óbvio - e você está olhando para o que acontece. Você veria algo impressionante.
Pela primeira vez na história da espécie humana, desenvolvemos claramente a capacidade de nos destruirmos. Isso é verdade desde 1945. Agora está finalmente sendo reconhecido que existem mais processos de longo-prazo como a destruição ambiental liderando na mesma direção, talvez não à destruição total, mas ao menos à destruição da capacidade de uma existência decente.
E existem outros perigos como pandemias, as quais estão relacionadas à globalização e interação. Então, existem processos em curso e instituições em vigor, como sistemas de armas nucleares, os quais podem levar à explosão ou talvez, extermínio, da existência organizada.
Como destruir o planeta sem tentar muito
A pergunta é: O que as pessoas estão fazendo a respeito? Nada disso é segredo. Está tudo perfeitamente aberto. De fato, você tem que fazer um esforço para não enxergar.
Houveram uma gama de reações. Têm aqueles que estão tentando ao máximo fazer algo em relação à essas ameaças, e outros que estão agindo para aumentá-las. Se olhar para quem são, esse historiador futurista ou extraterrestre observador veriam algo estranho. As sociedades menos desenvolvidas, incluindo povos indígenas, ou seus remanescentes, sociedades tribais e as primeiras nações do Canadá, que estão tentando mitigar ou superar essas ameaças. Não estão falando sobre guerra nuclear, mas sim desastre ambiental, e estão realmente tentando fazer algo a respeito.
De fato, ao redor do mundo - Austrália, Índia, América do Sul - existem batalhas acontecendo, às vezes guerras. Na Índia, é uma guerra enorme sobre a destruição ambiental direta, com sociedades tribais tentando resistir às operações de extração de recursos que são extremamente prejudiciais localmente, mas também em suas consequências gerais. Em sociedades onde as populações indígenas têm influência, muitos tomam uma posição forte. O mais forte dos países em relação ao aquecimento global é a Bolívia, cuja maioria é indígena e requisitos constitucionais protegem os “direitos da natureza”.
O Equador, o qual também tem uma população indígena ampla, é o único exportador de petróleo que conheço onde o governo está procurando auxílio para ajudar a manter o petróleo no solo, ao invés de produzi-lo e exportá-lo - e no solo é onde deveria estar.
O presidente Venezuelano Hugo Chávez, que morreu recentemente e foi objeto de gozação, insulto e ódio ao redor do mundo ocidental, atendeu a uma sessão da Assembléia Geral da ONU a poucos anos atrás onde ele suscitou todo tipo de ridículo ao chamar George W. Bush de demônio. Ele também concedeu um discurso que foi interessante. Claro, Venezuela é uma grande produtora de petróleo. O petróleo é praticamente todo seu PIB. Naquele discurso, ele alertou dos perigos do sobreuso dos combustíveis fóssil e sugeriu aos países produtores e consumidores que se juntassem para tentar manejar formas de diminuir o uso desses combustíveis. Isso foi bem impressionante da parte de um produtor de petróleo. Você sabe, ele era parte índio, com passado indígena. Esse aspecto de suas ações na ONU nunca foi reportado, diferentemente das coisas engraçadas que fez.
Então, em um extremo têm-se os indígenas, sociedades tribais tentando amenizar a corrida ao desastre. No outro extremo, as sociedades mais ricas, poderosas na história da humanidade, como os EUA e o Canadá, que estão correndo em velocidade máxima para destruir o meio ambiente o mais rápido possível. Diferentemente do Equador e das sociedades indígenas ao redor do mundo, eles querem extrair cada gota de hidrocarbonetos do solo com toda velocidade possível.

Ambos partidos políticos, o presidente Obama, a mídia, e a imprensa internacional parecem estar olhando adiante com grande entusiasmo para o que eles chamam de “um século de independência energética” para os EUA. Independência energética é quase um conceito sem significado, mas botamos isso de lado. O que eles querem dizer é: teremos um século no qual maximizaremos o uso de combustíveis fóssil e contribuiremos para a destruição do planeta.
E esse é basicamente o caso em todo lugar. Admitidamente, quando se trata de desenvolvimento de energia alternativa, a Europa está fazendo alguma coisa. Enquanto isso, os EUA, o mais rico e poderoso país de toda a história do mundo, é a única nação dentre talvez 100 relevantes que não possui uma política nacional para a restrição do uso de combustíveis fóssil, e que nem ao menos mira na energia renovável. Não é por que a população não quer. Os americanos estão bem próximos da norma internacional com sua preocupação com o aquecimento global. Suas estruturas institucionais que bloqueiam a mudança. Os interesses comerciais não aceitam e são poderosos em determinar políticas, então temos um grande vão entre opinião e política em muitas questões, incluindo esta. Então, é isso que o historiador do futuro veria. Ele também pode ler os jornais científicos de hoje. Cada um que você abre tem uma predição mais horrível que a outra.
“O momento mais perigoso na história”
A outra questão é a guerra nuclear. É sabido por um bom tempo, que se tivesse que haver uma primeira tacada por uma super potência, mesmo sem retaliação, provavelmente destruiria a civilização somente por causa das consequências de um inverno-nuclear que se seguiria. Você pode ler sobre isso no Boletim de Cientistas Atômicos. É bem compreendido. Então o perigo sempre foi muito pior do que achávamos que fosse.
Acabamos de passar pelo 50o aniversário da Crise dos Mísseis Cubanos, a qual foi chamada de “o momento mais perigoso na história” pelo historiador Arthur Schlesinger, o conselheiro do presidente John F. Kennedy. E foi. Foi uma chamada bem próxima do fim, e não foi a única vez tampouco. De algumas formas, no entanto, o pior aspecto desses eventos é que a lições não foram aprendidas.
O que aconteceu na crise dos mísseis em outubro de 1962 foi petrificado para parecer que atos de coragem e reflexão eram abundantes. A verdade é que todo o episódio foi quase insano. Houve um ponto, enquanto a crise chegava em seu pico, que o Premier Soviético Nikita Khrushchev escreveu para Kennedy oferecendo resolver a questão com um anuncio publico de retirada dos mísseis russos de Cuba e dos mísseis americanos da Turquia. Na realidade, Kennedy nem sabia que os EUA possuíam mísseis na Turquia na época. Estavam sendo retirados de todo modo, porque estavam sendo substituídos por submarinos nucleares mais letais, e que eram invulneráveis.
Então essa era a proposta. Kennedy e seus conselheiros consideraram-na - e a rejeitaram. Na época, o próprio Kennedy estimava a possibilidade de uma guerra nuclear em um terço da metade. Então Kennedy estava disposto a aceitar um risco muito alto de destruição em massa afim de estabelecer o princípio de que nós - e somente nós - temos o direito de deter mísseis ofensivos além de nossas fronteiras, na realidade em qualquer lugar que quisermos, sem importar o risco aos outros - e a nós mesmos, se tudo sair do controle. Temos esse direito, mas ninguém mais o detém.
No entanto, Kennedy aceitou um acordo secreto para a retirada dos mísseis que os EUA já estavam retirando, somente se nunca fosse à publico. Khrushchev, em outras palavras, teve que retirar abertamente os mísseis russos enquanto os EUA secretamente retiraram seus obsoletos; isto é, Khrushchev teve que ser humilhado e Kennedy manteve sua pose de macho. Ele é altamente elogiado por isso: coragem e popularidade sob ameaça, e por aí vai. O horror de suas decisões não é nem mencionado - tente achar nos arquivos.

E para somar um pouco mais, poucos meses antes da crise estourar os EUA haviam mandado mísseis com ogivas nucleares para Okinawa. Eram mirados na China durante um período de grande tensão regional.
Bom, quem liga? Temos o direito de fazer o que quisermos em qualquer lugar do mundo. Essa foi uma lição daquela época, mas haviam outras por vir.
Dez anos depois disso, em 1973, o secretário de estado Henry Kissinger chamou um alerta vermelho nuclear. Era seu modo de avisar à Rússia para não interferir na constante guerra Israel-Árabes e, em particular, não interferir depois de terem informado aos israelenses que poderiam violar o cessar fogo que os EUA  e a Rússia haviam concordado. Felizmente, nada aconteceu.
Dez anos depois, o presidente em vigor era Ronald Reagan. Assim que entrou na Casa Branca, ele e seus conselheiros fizeram com que a Força Aérea começasse a entrar no espaço aéreo Russo para tentar levantar informações sobre os sistemas de alerta russos, Operação Able Archer. Essencialmente, eram ataques falsos. Os Russos estavam incertos, alguns oficiais de alta patente acreditavam que seria o primeiro passo para um ataque real. Felizmente, eles não reagiram, mesmo sendo uma chamada estreita. E continua assim.
O que pensar das crises nucleares Iraniana e Norte-Coreana
No momento, a questão nuclear está regularmente nas capas nos casos do Irã e da Coréia do Norte. Existem jeitos de lidar com esse crise contínua. Talvez não funcionasse, mas ao menos tentaria. No entanto, não estão nem sendo consideradas, nem reportadas.
Tome o caso do Irã, que é considerado no ocidente - não no mundo árabe, não na Ásia - a maior ameaça à paz mundial. É uma obsessão ocidental, e é interessante investigar as razões disso, mas deixarei isso de lado. Há um jeito de lidar com a suposta maior ameaça à paz mundial? Na realidade existem várias. Uma forma, bastante sensível, foi proposta alguns meses atrás em uma reunião dos países não alinhados em Teerã. De fato, estavam apenas reiterando uma proposta que esteve circulando por décadas, pressionada particularmente pelo Egito, e que foi aprovada pela Assembléia Geral da ONU.
A proposta é mover em direção ao estabelecimento de uma zona sem armas nucleares na região. Essa não seria a resposta para tudo, mas seria um grande passo à frente. E haviam modos de proceder. Sob o patrocínio da ONU, houve uma conferência internacional na Finlândia dezembro passado para tentar implementar planos nesta trajetória. O que aconteceu? Você não lerá sobre isso nos jornais pois não foi divulgado - somente em jornais especialistas.
No início de novembro, o Irã concordou em comparecer à reunião. Alguns dias depois Obama cancelou a reunião, dizendo que a hora não estava correta. O Parlamento Europeu divulgou uma declaração pedindo que continuasse, assim como os estados árabes. Nada resultou. Então moveremos em direção a sanções mais rígidas contra a população Iraniana - não prejudica o regime - e talvez guerra. Quem sabe o que irá acontecer?
No nordeste da Ásia, é a mesma coisa. A Coréia do Norte pode ser o país mais louco do mundo. É certamente um bom competidor para o título. Mas faz sentido tentar adivinhar o que se passa pela cabeça alheia quando estão agindo feito loucos. Por que se comportariam assim? Nos imagine na situação deles. Imagine o que significou na Guerra da Coréia anos dos 1950’s o seu país ser totalmente nivelado, tudo destruído por uma enorme super potência, a qual estava regozijando sobre o que estava fazendo. Imagine a marca que deixaria para trás.
Tenha em mente que a liderança Norte Coreana possivelmente leu os jornais públicos militares desta super potência na época explicando que, uma vez que todo o resto da Coréia do Norte foi destruído, a força aérea foi enviada para a Coréia do Norte para destruir suas represas, enormes represas que controlavam o fornecimento de água - um crime de guerra, pelo qual pessoas foram enforcadas em Nuremberg. E esses jornais oficiais falavam excitadamente sobre como foi maravilhoso ver a água se esvaindo, e os asiáticos correndo e tentando sobreviver. Os jornais exaltavam com algo que para os asiáticos fora horrores para além da imaginação. Significou a destruição de sua colheita de arroz, o que resultou em fome e morte. Quão maravilhoso! Não está na nossa memória, mas está na deles.
Voltemos ao presente. Há uma história recente interessante. Em 1993, Israel e Coréia do Norte se moviam em direção a um acordo no qual a Coréia do Norte pararia de enviar quaisquer mísseis ou tecnologia militar para o Oriente Médio e Israel reconheceria seu país. O presidente Clinton interveio e bloqueou. Pouco depois disso, em retaliação, a Coréia do Norte promoveu um teste de mísseis pequeno. Os EUA e a Coréia do Norte chegaram então a um acordo em 1994 que interrompeu seu trabalho nuclear e foi mais ou menos honrado pelos dois lados. Quando George W. Bush tomou posse, a Coréia do Norte tinha talvez uma arma nuclear e verificadamente não produzia mais.
Bush imediatamente lançou seu militarismo agressivo, ameaçando a Coréia do Norte - “machado do mal” e tudo isso - então a Coréia do Norte voltou a trabalhar com seu programa nuclear. Na época que Bush deixou a Casa Branca, tinham de 8 a 10 armas nucleares e um sistema de mísseis, outra grande conquista neoconservadora. No meio, outras coisas aconteceram. Em 2005, os EUA e a Coréia do Norte realmente chegaram a um acordo no qual a Coréia do Norte teria que terminar com todo seu desenvolvimento nuclear e de mísseis. Em troca, o ocidente, mas principalmente os EUA, forneceria um reator de água natural para suas necessidades medicinais e pararia com declarações agressivas. Eles então formariam um pacto de não agressão e caminhariam em direção ao conforto.
Era muito promissor, mas quase imediatamente Bush menosprezou. Retirou a oferta do reator de água natural e iniciou programas para compelir bancos a pararem de manejar qualquer transação Norte Coreana, até mesmo as legais. Os Norte Coreanos reagiram revivendo seu programa de armas nuclear. E esse é o modo que se segue.
É bem sabido. Pode-se ler na cultura americana principal. O que dizem é: é um regime bem louco, mas também segue uma política do olho por olho, dente por dente. Você faz um gesto hostil e responderemos com um gesto louco nosso. Você faz um gesto confortável e responderemos da mesma forma.
Ultimamente, por exemplo, existem exercícios militares Sul Coreanos-Americanos na península Coreana a qual, do ponto de vista do Norte, tem que parecer ameaçador. Pensaríamos que estão nos ameaçando se estivessem indo ao Canadá e mirando em nós. No curso disso, os mais avançados bombardeiros na história, Stealth B-2 e B-52, estão travando ataques de bombardeio nuclear simulados nas fronteiras da Coréia do Norte.
Isso, com certeza, reacende a chama do passado. Eles lembram daquele passado, então estão reagindo de uma forma agressiva e extrema. Bom, o que chega no ocidente derivado disso tudo é o quão loucos e horríveis os líderes Norte Coreanos são. Sim, eles são. Mas essa não é toda a história, e esse é o jeito que o mundo está indo.
Não é que não haja alternativas. As alternativas somente não estão sendo levadas em conta. Isso é perigoso. Então, se me perguntar como o mundo estará no futuro, saiba que não é uma boa imagem. A menos que as pessoas façam algo a respeito. Sempre podemos.

Texto originalmente publicado no Alternet.
Tradução: Isabela Palhares
 Via http://www.brasildefato.com.br/

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

ROMÊNIA E A VIOLÊNCIA



O interessante de conhecer a Romênia é ver um país do Leste Europeu onde não só a população se parece com a nossa (tem o tal do "jeitinho romeno" de se virar como pode diante das dificuldades) como tem graves problemas sociais também. Eles estão divididos entre os "romenos Romenos" e os "romenos Rroms" (ciganos). A confusão se dá porque, embora nascidos na Romênia, o povo cigano que lá habita pertence à população "Rrom", um povo à parte, ou seja, a comunidade cigana que compartilha de uma origem comum, que veio da Índia. Os ciganos estão espalhados pelo mundo e existem também na Hungria, Ucrânia e até no Brasil. Na Europa em geral (mais especialmente na França) há muitos ciganos que se especializam em bater carteira, e quem ganha a fama é o povo romeno em geral.

Os Rroms vieram há muito tempo atrás pras bandas do Leste Europeu como escravos, vindo da Índia, e com o tempo foram adquirindo os traços locais, e por isso é meio difícil destingui-los. Isso criou um caso sociológico interessante em que, para se diferenciar por contraste, os "romenos romenos" usam cores sóbrias, quase não sorriem, são contidos, os homens quase não dançam, não cantam, assobiar uma melodia é quase um crime, enfim, tudo o que se diferencie dos ciganos (que são alegres e desinibidos como o povo brasileiro) e que por contraste pareça mais "civilizado". Por outro lado, e isso a psicologia explica, os Romenos me parecem ter um certo fascínio pelas coisas alegres e bizarras de outros países, e pode-se ver isso nas decorações dos pubs, o lugar preferido deles. Assim eles podem ter contato com a alegria sem necessariamente emaná-la.

Os ciganos são bem-vindos pra trabalhar para os romenos, mas não são bem aceitos para entrar numa família ou círculo de amizades (obviamente há exceções). Vários países da Europa têm sua dívida kármica com povos de outros países escravizados ou colonizados, mas o caso da Romênia é talvez o mais próximo do Brasil. A complexa relação com os ciganos é similar (em parte) ao que acontece no Brasil entre a "elite branca" e os negros, só que no Brasil isso acontece de forma terrivelmente dissimulada, enquanto na Romênia é mais escancarada. Imagino a dificuldade dos ciganos e meio-ciganos que querem viver integrados em sua cidade e pra isso precisam "se controlar", se anular culturalmente, para assim se passar por um "romeno romeno". Isso me fez refletir sobre as dificuldades dos negros que queiram "entrar" num certo círculo social, pois não podem "esconder" sua cor, e (conscientemente ou inconscientemente) acabam cortando (ou alisando) o cabelo, vestindo roupas e abraçando costumes que normalmente não fariam parte de seu convívio/cultura. Não que todo negro deva gostar de cultura negra, isso seria ridículo, mas eu sinto claramente que há uma imposição velada da sociedade brasileira em querer enquadrar o negro numa forma, e ditados como "negro de alma branca" - usado até hoje pelos mais velhos como um elogio - são a face mais vergonhosa disso.

Tergiverso. Não é preciso sair do país pra ver isso. O que eu queria mesmo é comparar a violência (ou a falta de violência) na capital da Romênia com o Brasil. Conheço uma pessoa que é policial na Romênia e pode falar com certa autoridade: não há armas de fogo em Bucareste. Não há crimes com armas.
Há alguns grupos de malfeitores que utilizam facas, pistola de ar comprimido, até mesmo espadas(!), mas eles não ficam assaltando supermercados e pessoas nas ruas, e são raríssimos, funcionando mais como a Yakuza no Japão. Mesmo com essa sociedade desigual, onde há pobreza, discriminação, mendicância, tráfico de drogas e todos os ingredientes que temos no Brasil, não há gente sendo assaltada e assassinada nas ruas, e ele me disse que se isso acontecesse seria um escândalo na TV e jornais.
Então eu me pergunto: por que no Brasil aceitamos a violência nossa de cada dia, equivalente a um país em guerra, um "Charlie Hebdo" a cada fim-se-semana, com essa passividade bovina, a ponto disso nem ter sido um assunto a ser debatido na campanha presidencial?? Foram 53.646 mortes violentas no Brasil em 2013 - 11% dos homicídios no mundo ocorrem no país, que tem menos de 3% da população mundial!
O argumento de que a violência é resultado da desigualdade social e por isso não pode ser combatida enquanto ela existir cai por terra diante do que estou vendo com meus próprios olhos!
Então vamos procurar outra explicação sociológica: Seria o alto grau de violência resultado da malemolência e corrupção do brasileiro?

Pois na Romênia passaram governos EXTREMAMENTE corruptos, ditadores cruéis, e a grande maioria dos romenos aparecem até hoje nas estatísticas como recebedores de salário mínimo porque eles sonegam impostos. E isso não impediu o judiciário de lá de botar na cadeia um ex-presidente (EX-PRESIDENTE NA CADEIA) porque ele não pôde justificar a compra de uma janela (JANELA) que custava mais do que sua renda permitia!

Tudo passa por QUERER. Querer uma força-tarefa de combate ao crime, integrada, federal, eliminando de seus quadros os policiais corruptos. Querer um judiciário verdadeiramente independente, sem estar atrelado aos políticos e politicagens. Cabe também ao POVO querer segurança nas ruas a ponto de que isto seja tão importante quanto o ar que respiramos. A ponto de cruzar os braços e fazer greve geral. A ponto de não eleger quem não faz da reforma da segurança uma prioridade.

Quando eu falo dos políticos corruptos que são condenados e saem da cadeia (ou nem pisam lá) por conta de habeas corpus e falta de antecedentes meu amigo fica horrorizado, e me questionando do porque a imprensa não fala disso, do porque do povo não sair às ruas, e graças a Deus alguém me entende, porque no Brasil a maioria vê o roubo de dinheiro do país como um mal menor, a ponto de reeleger um partido cuja cúpula foi condenada por desviar dinheiro público! Isso seria impensável na Romênia, e me causa muita vergonha porque estamos falando de um país que saiu do inferno comunista há apenas 30 anos, tem invernos terríveis, terremotos devastadores a cada 35 anos, crises econômicas e uma moeda desvalorizada em relação ao Euro contra um gigante adormecido da América do Sul onde, se plantando, tudo dá.

Via http://www.saindodamatrix.com.br/

Conheça a escola livre que fica em uma comunidade sustentável na Bahia

Em Piracanga, no sul da Bahia, há uma escola que dispensa a lousa, os uniformes, o caderno e a chamada. Com a proposta de uma Educação Viva, em que a criança vive em um ambiente protegido em que pode ser livre, a Escola Viva Inkiri dá suporte à educação de cerca de 30 crianças.
O intuito é manter a criança concentrada em si mesma, consciente do que quer e do que está fazendo aqui, neste planeta“, afirma a escola, que leva espiritualidade a sério e acredita que cada criança já nasce com tudo aquilo que precisa para viver: da felicidade às habilidades.
Diferente de qualquer escola a qual estamos acostumados, a Escola Livre se baseia nacriatividade espontânea e permite que a criança escolha as atividades que deseja desenvolver – seja a pintura, o teatro, a marcenaria ou uma soneca. “Fica evidente a importância de não propor tarefas, sejam elas aulas olhando para o quadro ou uma atividade artística. A vontade deve vir da criança“, afirma a escola, que funciona desde 2008 sob a coordenação da educadora uruguaia Ivana Jauregui.


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Ivana teve a ideia de criar uma escola diferente ao dar à luz seu primeiro filho e, após viajar o mundo em busca de métodos para educação livre, encontrou em Piracanga a oportunidade de dar início à Escola Livre Inkiri. O ambiente possui áreas para atividades de marcenaria, uma cozinha, uma sala de leitura e, apesar de as crianças serem livres para “fazerem o que têm vontade”, a convivência na escola é pautada por valores como o respeito e organização. A metodologia usada pela escola é radicalmente diferente dos modelos tradicionais, o que nos faz repensar sobre o padrão lousa-caderno. “Na escola, o aprendizado está enxugado e limitado dentro de uma casinha, com um professor, um quadro e colegas com folhas em branco para responder. Mas a gente não aprende só quatro horas. Aprende o tempo inteiro. Como fica o resto do dia?“, questiona a educadora.

A proposta da escola está intimamente ligada aos preceitos sobre os quais vive a Comunidade Inkiri, em Piracanga. Criada por um casal de portugueses, a comunidade acredita na espiritualidade e nas relações sustentáveis com a natureza como forma de viver plenamente e em paz. Ao todo, lá habitam 5 bebês, 19 crianças, 9 jovens e 30 adultos. Todos eles vivem de forma simples e equilibrada, fabricando seus próprios produtos e confiando na espiritualidade. Além da Escola Livre Inkiri, a comunidade também oferece a Universidade Livre Inkiri, um programa voltado para jovens que buscam a mesma proposta de iluminação e transformação interna, e a Escola das Artes, um espaço voltado para a liberdade de se expressar artisticamente. Além dos moradores, a comunidade recebe visitas de pessoas de todo o mundo para a participação nas escolas e nos cursos ofertados.
Saiba mais nos vídeos abaixo:





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Todas fotos © Escola Viva Inkiri

Via http://www.hypeness.com.br/

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

DITADURA MILITAR (PARTE II)



"Na noite de 31 de março de 1964, eu percebi que a classe operária estava isolada. E ia ser derrotada da forma mais desmoralizante possível: sem luta. E percebi que quem assumisse a responsabilidade de levar a classe operária à luta cometeria um crime. Os generais queriam fazer no Brasil o mesmo que foi feito na Indonésia no ano seguinte: um banho de sangue."
(Luís Carlos Prestes)

Com o Golpe Militar consolidado, restou aos oposicionistas duas linhas de combate: uma política (o PCB, que em 1966 constrói uma frente de "direita à esquerda" para a derrubada pacífica da ditadura militar com o seguinte pensamento: "fomos derrotados politicamente, portanto, podemos derrotá-los politicamente") e outra militar (liderada pelo PCdoB, que sempre foi radical). A segunda via foi a que mais atraiu os jovens, e foi a responsável por tudo o que se seguiu de ruim. Centenas de militantes com alguma ligação com o PTB de Leonel Brizola e João Goulart partiram pra o Uruguai para organizar uma resistência armada. Sob a liderança de Brizola, estes estavam interessados em fazer retornar Jango ao poder. Mas Brizola pediu ajuda a Fidel Castro, em Cuba, através de Herbert de Souza, o "Betinho". E aí então Cuba e a União Soviética assumiram os esforços de guerrilha, com objetivos menos nobres. Se por um lado tínhamos a CIA ajudando os militares brasileiros, por outro tínhamos a KGB (animada com o sucesso da Revolução Cubana) e Cuba injetando dinheiro nos partidos comunistas brasileiros.

"A atuação cubana em relação ao Brasil em termos militares - treinamento de brasileiros e concepção de luta guerrilheira - tiveram dois momentos distintos: na primeira fase, a coordenação de Fidel e Che na ajuda e treinamento dos militantes das Ligas Camponesas com o apoio direto e discreto da China (1962). A partir do golpe militar e com a destruição dos planos de Julião e Brizola, Fidel tomaria as rédeas desse processo e se tornaria, especialmente em relação ao Brasil, seu principal formulador."

(Luis Mir; A Revolução Impossível (uma história da luta armada da esquerda no Brasil))
Muitos estudantes partiram pra Cuba, como José Dirceu (Ministro da Casa Civil do governo Lula, hoje presidiário), para aprender táticas de revolução e guerrilha. Outros foram à União Soviética, como o jornalista Ancelmo Gois, para receber doutrinamento político direto com a KBG. Todos os que saíram receberam treinamento em guerrilha urbana, doutrinação, contra-informação, forma de governo, etc, portanto é muito difícil acreditar quando alguma dessas pessoas dizem que "estavam lutando pela democracia" (deve ser parte do treinamento).

O artigo 1º do estatuto do VAR-Palmares (grupo guerrilheiro formado pela união de dois outros grupos, o VPR e o COLINA, do qual fazia parte Dilma Rousseff) deixava bem claro: "A VAR-Palmares é uma organização político-militar de caráter partidário, marxista-leninista, que se propõe a cumprir todas as tarefas da guerra revolucionária e da construção do Partido da Classe Operária, com o objetivo de tomar o poder e construir o socialismo".


"Ao longo do processo de radicalização iniciado em 1961, o projeto das organizações de esquerda que defendiam a luta armada era revolucionário, ofensivo e ditatorial. Pretendia-se implantar uma ditadura revolucionária. Não existe um só documento dessas organizações em que elas se apresentassem como instrumento da resistência democrática."

(Daniel Aarão Reis; ex-militante do MR-8, professor de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense e autor de "Ditadura Militar, Esquerda e Sociedade", em declaração ao jornalista Elio Gaspari)

Carlos Marighela, em seu Mini-Manual do Guerrilheiro Urbano, explicava como deveria ser a luta armada visando a implantação do comunismo no Brasil:

a. A exterminação física dos chefes e assistentes das forças armadas e da polícia.
b. A expropriação dos recursos do governo e daqueles que pertencem aos grandes capitalistas, latifundiários e imperialistas, com pequenas expropriações usadas para o mantimento do guerrilheiro urbano individual e grandes expropriações para o sustento da mesma revolução. É necessário que todo guerrilheiro urbano tenha em mente que somente poderá sobreviver se está disposto a matar os policiais e todos aqueles dedicados à repressão...


Em outras palavras: a cultura do roubo e do assassinato. É como se eu decidisse que meus objetivos são mais importantes que a vida e as posses de uma parcela de pessoas que tratamos como inimigos. Vou juntando pessoas ao meu grupo e com o tempo a lista de inimigos vai aumentando e até mesmo antigos aliados passam a ser meus inimigos, e em pouco tempo será permitido roubar, matar e punir TODOS os que achássemos que são contra nossos objetivos. Vimos isso acontecer na Revolução Russa e na Chinesa, e também no Nazismo. Ou seja, estamos diante de uma perfeita "DEMOCRACIA COMUNISTA/NAZISTA".

"...não há país onde, depois de instaurado um regime comunista, não tenha sido imposto um sistema de terror. Podem variar os mecanismos do exercício do terror, a quantidade e a qualidade das vítimas, mas está em todo o lugar, temos que repetir com força, em todo o lugar, a idêntica ferocidade, a arbitrariedade e a enormidade no uso da violência para a manutenção do poder."

(Norberto Bobbio, filósofo italiano, inspirador da "nova esquerda", em entrevista ao jornal italiano L’Unitá).
Em dezembro de 1967 a Ação Libertadora Nacional (ALN) - liderada por Carlos Marighela - começou assaltos com a finalidade de "expropriação" de fundos. Até julho de 1969 foram atacadas mais de 31 agências bancárias e um carro pagador. O que se devia não só à ALN, mas também a outras organizações clandestinas. Uma das mais importantes ações de "expropriação" foi executada pelo grupo VAR-Palmares, o roubo de um cofre da residência de Ana Capriglione, amante do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros. Retirado da mansão e levado para um aparelho, o pesado cofre revelou que a operação valera dois e meio milhões de dólares. Um resultado e tanto, pois a VAR-Palmares não mais precisaria arriscar-se em assaltos a bancos. O grupo emitiu o seguinte comunicado à agência France Press:

"Depois de uma longa investigação, localizamos uma parte da famosa ‘caixinha’ do Adhemar de Barros, enriquecido por anos e anos de corrupção. Conseguimos US$ 2,5 milhões. Esse dinheiro, roubado do povo, a ele será devolvido."

Não só não foi devolvido como, aparentemente, a turma continua "expropriando" por aí, em outras áreas.
De 1964 a 1968 diversos atentados terroristas com bombas eclodiram por todo o país. Dois deles contra o jornal "Estado de S. Paulo", curiosamente. Em 1 de julho de 1968, membros do COLINA assassinaram a tiros um oficial no bairro da Gávea, acreditando ser o oficial boliviano que havia matado Che Guevara, quando na verdade tratava-se de um major do exército alemão, Edward Ernest von Westernhagen. Diante do equívoco, o COLINA não assumiu a autoria do atentado.

Em 26 de junho de 1968 três membros de um grupo de onze militantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) lançaram um carro-bomba, sem motorista, contra o Quartel General do II Exército, no bairro de Ibirapuera, em São Paulo. A guarda disparou contra o veículo, que bateu na parede externa do Quartel General. O soldado Mário Kozel Filho, de 18 anos, que estava de sentinela neste dia, foi em direção ao carro, pensando tratar-se de um acidente. A carga com vinte quilos de dinamite explodiu em seguida, atingindo uma área de raio de 300 metros e estraçalhando o corpo de Kozel. Outros 6 militares ficaram gravemente feridos.

No dia 4 de setembro de 1969 os militantes da ALN e do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), capturaram o embaixador dos Estados Unidos, Charles Burke Elbrick, com o intuito de trocá-lo por presos políticos (entre eles José Dirceu). Dessa ação participaram o ex-Deputado Federal Fernando Gabeira e o ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social do governo Lula, Franklin Martins. Ao contrário de seus colegas, Gabeira admite que não lutava pela "democracia", e sim por uma ditadura do proletariado. Assim também o fez Eduardo Jorge, candidato a presidente em 2014.

Em 5 de fevereiro de 1972, militantes da ALN, VAR-Palmares e PCBR assassinaram a tiros o marinheiro inglês David Cuthberg, que se encontrava no país para as comemorações dos 150 anos de independência do Brasil. Após o atentado foram encontrados panfletos que informavam que o ato teria sido decisão de um "tribunal", como forma de solidariedade à luta do Exército Republicano Irlandês contra o domínio inglês. Ou seja, um completo inocente morto ao acaso para provar um ponto ideológico que não faria nenhuma diferença na luta pelo poder. E tudo isso decidido por um "Tribunal" com poder de vida e morte. Já imaginou como seriam nossas vidas nesse paraíso socialista?

Em um editorial publicado no dia 17 de fevereiro de 2009, o jornal Folha de São Paulo utilizou a expressão "ditabranda" para se referir à ditadura que governou o Brasil entre 1964 e 1985. Na opinião do jornal, que apoiou o golpe militar, a ditadura brasileira teria sido "mais branda" e "menos violenta" que outros regimes similares na América Latina. É como certos fanáticos de um partido que, pra justificar os roubos (e rombos) nas contas públicas dizem que "os do partido tal faziam pior". Não se justifica violência dizendo que se está sendo menos violento que outros monstros. É sempre bom lembrar que a guilhotina foi inventada como uma forma "mais humana" de se executar um prisioneiro, porque as técnicas antigas eram mais violentas. O que não tornou a Revolução Francesa menos desumana.

O regime militar brasileiro também planejou atentados no intuito de incriminar a Esquerda: o mais conhecido desses foi o Atentado ao Gasômetro. A idéia era criar um clima de terror para encobrir o sequestro e assassinato de quarenta figurões da política brasileira, entre eles Carlos Lacerda, Jânio Quadros e Juscelino Kubitschek. Mesmo no fim da ditadura (quando o próprio governo militar já ensaiava uma abertura política) alguns militares mais radicais não desistiram de fazer atentados em nome da esquerda (numa tentativa desesperada de se manterem "úteis" no poder): O atentado ao RioCentro - onde dois militares que tentavam plantar uma bomba dentro de um edifício acabaram detonando ela dentro de um carro - foi o exemplo mais claro disso.

Há quem ache que as coisas só começaram a ficar pesadas depois de 68, mas mesmo antes já havia mortes por tortura pelos militares: O corpo de Manoel Raimundo Soares, sargento do Exército com idéias nacionalistas e militância na organização dos suboficiais, foi encontrado boiando, com mãos e pés atados, nas águas do rio Jacuí no dia 24 de agosto de 1966. O episódio ficou conhecido como o "Caso das Mãos Amarradas". Foi um dos primeiros casos de tortura e morte por parte dos órgãos de repressão sobre o qual se teve notícia na época.

Com a escalada de violência de ambas as partes, em 1968 instaurou-se o famigerado Ato Institucional nº 5, mais conhecido como o "AI-5", que definiu o momento mais duro do Ditadura Militar, dando poder de exceção aos governantes para punir arbitrariamente os que fossem inimigos do regime (ou como tal considerados). Isso também ocorreu pois os militares viam com preocupação os movimentos nacionais se associando contra o regime. No decorrer de 1968 a Igreja Católica começava a ter uma ação mais expressiva na defesa dos Direitos Humanos (com Dom Hélder Câmara no Recife e Paulo Evaristo Arns em São Paulo), e lideranças políticas cassadas buscavam se unir visando a um retorno à política nacional. A marginalização política que o golpe impusera a antigos rivais - Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek e João Goulart - tivera o efeito de associá-los, ainda em 1967, na Frente Ampla, cujas atividades foram então suspensas pelo ministro da Justiça, em abril de 1968. Uma greve dos metalúrgicos em Osasco, em meados do ano (a primeira greve operária desde o início do regime militar), também sinalizava para a "linha dura" que medidas mais enérgicas deveriam ser tomadas para controlar as manifestações de descontentamento de qualquer ordem. A gota d'água para a promulgação do AI-5 foi o pronunciamento do deputado Márcio Moreira Alves, do MDB, na Câmara, nos dias 2 e 3 de setembro, lançando um apelo para que o povo não participasse dos desfiles militares do 7 de Setembro e para que as moças, "ardentes de liberdade", se recusassem a sair com oficiais.

O AI-5 autorizava o presidente da República, em caráter excepcional e, portanto, sem apreciação judicial, a: decretar o recesso do Congresso Nacional; intervir nos estados e municípios; cassar mandatos parlamentares; suspender, por dez anos, os direitos políticos de qualquer cidadão; decretar o confisco de bens considerados ilícitos e suspender a garantia do habeas-corpus. No preâmbulo do ato dizia-se ser essa uma necessidade para atingir os objetivos da revolução, "com vistas a encontrar os meios indispensáveis para a obra de reconstrução econômica, financeira e moral do país". Ironicamente não é muito diferente das propostas da "democracia comunista/nazista" que listei mais acima. Faltou só dizer formalmente que eles poderiam matar qualquer um que se interpusesse entre eles e o "futuro do país". Mas isso eles faziam informalmente.

Quantos jovens idealistas foram ceifados no auge de sua vida por terem sido cooptados por um dos dois regimes autoritários que mascaravavam sua vilania em nome da liberdade?
De um lado os Militares, controlando com mão-de-ferro o país com a desculpa de evitar uma ditadura comunista.

De outro, os comunistas, desejando o poder à todo custo, enquanto diziam lutar pela liberdade.
E o que vivemos foram trevas. E essas trevas, como um Dementador, sugaram toda a alegria de viver do brasileiro.


E todos se calavam. A grande escuridão do Brasil. Assim são as ditaduras. Hoje ouvimos falar dos horrores praticados na Coreia do Norte. Aqui não foi muito diferente. O medo era igual. O obscurantismo igual. As torturas iguais. A hipocrisia idêntica. A aceitação da sobrevivência. Ame-me ou deixe-me. O dedurismo. Tudo igual. Em número menor de indivíduos massacrados, mas a mesma consistência de terror, a mesma impotência.

Falam na corrupção dos dias de hoje. Esquecem-se de falar nas de ontem. Quando cochichavam sobre "as malas do Golbery" ou "as comissões das turbinas", "as compras de armamento". Falavam, falavam, mas nada se apurava, nada se publicava, nada se confirmava, pois não havia CPI, não havia um Congresso de verdade, uma imprensa de verdade, uma Justiça de verdade, um país de verdade.

E qualquer empresa, grande, média ou mínima, para conseguir se manter, precisava obrigatoriamente ter na diretoria um militar. De qualquer patente. Para impor respeito, abrir portas, estar imune a perseguições. Se isso não é um tipo de aparelhamento, o que é, então? Um Brasil de mentirinha, ao som da trilha sonora ufanista de Miguel Gustavo.

(Hildegard Angel)

O futebol foi usado como válvula de escape. Nem a seleção brasileira escapou do controle militar. Na copa de 70, quando o presidente/general Emílio Garrastazu Médici disse que Dadá Maravilha precisava ser convocado, o treinador João Saldanha respondeu: "nem eu escalo o ministério, nem o presidente escala o time". Pouco tempo depois foi demitido e substituído pelo Zagallo. A imprensa também foi completamente controlada:

"O exercício do jornalismo não é confortável sob ditaduras, embora se saiba que veículos de comunicação influentes apoiaram o arbítrio e até se enriqueceram com ele. Com o AI-5, a autocensura virou censura aberta, explícita. Há um episódio que me traz uma afetuosa recordação: Eu trabalhava no Jornal da Tarde, em São Paulo, naquele nefando 13 de dezembro de 1968. A redação ouviu, consternada, a leitura do AI-5 pelo rádio. Fomos avisados que um censor passaria a ler o jornal antes de sair às bancas. Teria um lugar para ele nas cercanias de nossas mesas. Naquela noite, quando o censor chegou, a redação em peso saiu. Fomos para a calçada (os mais famintos aproveitaram para se saciar com aquele magnífico sanduiche de pernil do Bar Estadão). Depois, voltamos ao trabalho."

(Nirlando Beirão)

Toda forma de expressão cultural era controlada e censurada. O grande desafio (ou diversão) dos artistas era conseguir diblar a censura e criticar (de forma velada) a situação. O músico Tom Zé conseguiu colocar um c* na capa de um disco, só pela zoação. Secos & Molhados, de Ney Matogrosso, conseguia esconder melhor que ninguém sua rebeldia e suas críticas por trás de muita bizarrice. Mas o mestre da metáfora era mesmo Chico Buarque que, com suas letras precisas, conseguia traduzir o espírito daquela época até mesmo para os dias de hoje, para as novas gerações que - felizmente - nunca a viveram, mas ironicamente pedem seu retorno.

Uma música lançada em 1968 foi a que mais marcou este período: franca, direta, ela serviu de hino para toda uma geração de jovens que lutava pela abertura política: "Caminhando e cantando (Pra não dizer que falei das flores)" foi composta e cantada por Geraldo Vandré. A música foi a sensação do Festival de Música Brasileira da TV Record, e através dela Vandré clamava o público à revolta contra o regime ditatorial e ainda fazia fortes provocações ao exército, como no trecho: "Há soldados armados / Amados ou não / Quase todos perdidos / De armas na mão / Nos quartéis lhes ensinam / Uma antiga lição: De morrer pela pátria / E viver sem razão".



Era comum nessa época pessoas desaparecerem. Stuart Edgar Angel Jones, o Tuti, foi torturado até a morte dentro do Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica, no Rio de Janeiro. Amarram-no a uma viatura, com a boca colada ao cano de escapamento. Daí deram voltas no pátio. A viatura acelerava e freava. Tuti, com a pele esfolada, tossia forte. Seu corpo nunca foi encontrado. Sua mãe, Zuzu Angel, ficou conhecida no Brasil e no mundo por ter botado a boca no trombone e denunciado o desaparecimento do filho. Sua busca só terminou com sua morte, num controverso acidente de carro.

Ano passado morreu de suicídio a vítima mais jovem da Ditadura Militar: Carlos Alexandre era um bebê de 1 ano e 8 meses quando foi torturado. Levou uma bofetada na cara que cortou seus lábios, porque chorava de fome. Foi jogado no chão e bateu a cabeça. Levou choques elétricos. "Para mim, a ditadura não acabou. Até hoje sofro os seus efeitos. Tomo antidepressivo e antipsicótico. Tenho fobia social." escreveu Carlos, muito tempo depois. Tudo isso aconteceu porque os policiais encontraram na casa dos seus pais um livro intitulado "Educação Moral e Cívica & Escalada Fascista no Brasil" e o consideraram uma injúria às autoridades. A mãe ficou presa por 40 dias. O pai ficou 4 meses, sendo torturado. Eles foram processados – e absolvidos – sob a acusação de tentar difamar o Estado brasileiro.

Nada brando pra quem viveu. Vocês têm alguma dúvida de que eu (ou mesmo vocês) por conta desse blog não seria levado pro DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) e torturado? Eu nunca tive.
João Figueiredo, o último presidente do regime militar (1979-1985) acusava Getúlio de ser o verdadeiro pai da ditadura: "No Brasil, quem inventou golpe de Estado, prisão de político, fechamento de Congresso e senador 'biônico' não fomos nós, os milicos, e sim a mente maligna do Getúlio Vargas."

Parece um certo partido de hoje, justificando o injustificável.

Referência:
Fundação Getúlio Vargas: Fatos & Imagens do AI-5;
O suicídio de Carlos Alexandre, torturado durante a ditadura;
Carta Capital: Especial 50 anos do golpe


Fonte http://www.saindodamatrix.com.br/archives/2014/12/ditadura_milita.html