quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Um estudo sobre o complexo Lucy, de Luc Besson

Por Camila Picheth | Autora convidada
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Lucy é uma anormalidade dentro dos padrões dos blockbusters. O filme teve uma ação de marketing pesada, principalmente se tratando de uma produção envolvendo Scarlett Johansson e Morgan Freeman. Isso fez com que muita gente fosse assistir o novo lançamento no cinema. Isso também fez com que a maioria das pessoas comprasse o ingresso com uma ideia completamente errônea do que esperar da trama.  É importante ressaltar que esse não é um filme de ação/ficção científica. Todos que sentaram na poltrona esperando ver Lucy ganhar super poderes e sair batendo em vilões – como mais um filme da Marvel – saíram do cinema falando mal da história até perder o fôlego. Essa trama é quase puramente sobre física quântica, filosofia e reflexão. A parte da “ficção-científica” depende de quanto a sua mente está aberta.
Isso não é uma crítica do filme. Não vou falar sobre construções de cena, trabalho do diretor ou qualidade dos efeitos especiais. O que procuro fazer com esse texto é clarificar um pouco as ideias mostradas no filme. E mostrar que os “absurdos” que muitos falaram mal, podem não ser apenas resultado de uma “pira que deu ruim”. E aqui é FUNDAMENTAL que se tenha conhecimento de física quântica. Podendo ser definida como a física de possibilidades, essa é uma área formada por muitas teorias, hipóteses e intuições, pois a maioria das leis da física tradicional não funciona com partículas subatômicas, e pouco pode ser “comprovado cientificamente”. Mas não se engane, só porque a ciência atual não consegue provar certos conceitos, não significa que isso seja falsa ciência. Apenas mostra que ainda temos um longo caminho a percorrer como pesquisadores. Vale lembrar que pessoas foram torturadas e queimadas por dizerem coisas como “a Terra não é plana” e que “não somos o centro do universo”. Coisas que atualmente são absolutamente evidentes, mas que anos atrás eram motivo de humilhação e morte. “Ignorância traz caos, não conhecimento”.
 Vamos começar falando sobre o tal conceito dos 10%. Vi muita gente criticando o filme antes de assistir ou desistindo de ir ao cinema porque os cientistas já provaram que nós usamos 100% do cérebro, e que essa ideia é ultrapassada. Mas é importante enxergar isso apenas como referência para podermos acompanhar o desenvolvimento da trama. De um ponto de vista cegamente científico, pode até ser que de fato estamos usando os 100%. No entanto, isso não quer dizer que ele esteja completamente desenvolvido. Lendo uma crítica por aí, houve um comentário em que a pessoa comparou o corpo de um indivíduo sedentário e de um atleta. Ambos utilizam todo o seu corpo no dia a dia, mas não precisa dizer quanto mais capaz o corpo do atleta é. Acho que não há melhor analogia para mostrar a diferença entre utilização e capacitação.
 Se você nunca teve interesse ou conseguiu ler um livro sobre a física quântica, não tem problema. Porque a televisão não é formada apenas de lixo, como alguns adoram dizer. Você só precisa assistir certos episódios das séries Cosmos e Trough the Wormhole (apresentada, inclusive, pelo Morgan Freeman :D) pra ter ideia da loucura que é essa área. E, como eu disse antes, da quantidade de possibilidades que ela apresenta. Acontece que essas partículas extremamente pequenas não se comportam do mesmo jeito que as coisas que podemos ver ao olho nú. E isso deixa mesmo os cientistas mais renomados perdidos. Lá no primeiro episódio de Cosmos, o astrofísico e apresentador Neil deGrasse Tyson vai compactar a história do planeta Terra em um calendário de um ano. Sabe quando que os humanos vão aparecer na superfície do planeta? Só no último minuto do dia 31 de Dezembro. Jesus vai surgir apenas nos últimos 5 segundos desse calendário. Ou seja, nós somos MUITO novos nesse planeta. Os cientistas já afirmaram que conhecemos em torno de 1% dos mares e, nas melhores das hipóteses, 30% das formas de vida terrestres. Imagine então o quão pouco se sabe de partículas descobertas há apenas 100 anos. Por isso é essencial não deixar os nossos paradigmas atuais afetar o pensamento crítico envolvido em teorias revolucionárias. Será que é tão impossível assim poder ter controle do seu corpo e do ambiente à sua volta?
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[este ensaio apresenta spoilers do filme] Com o segundo episódio de Cosmos assistido, você vai compreender que toda a vida na terra é apenas uma; que dividimos partes de DNA com plantas e inúmeros animais; que no nível mais profundo da realidade, nada é sólido – é apenas informação. E o mais importante: que tudo e todos são feitos de átomos. Tudo e todos são feitos do mesmo material, o qual também forma os outros planetas, estrelas e galáxias do universo. Isso significa o que? Que não é difícil imaginar a habilidade de curar feridas de balas, mudar a cor do cabelo e transformar seu corpo (ou no caso do filme, suas mãos) em qualquer outra coisa. É só uma questão de reorganizar seus átomos. Ela poderia ter se transformado em qualquer coisa ou pessoa. Os átomos são como peças de lego. Se desenvolvermos a capacidade de reorganizá-los, nenhuma forma seria impossível. Quanto ao conceito de que tudo não passa de informações, isso explica o motivo de Lucy conseguir matar os capangas do Mr. Jang mesmo com as portas do apartamento fechadas. Se tudo é informação, e ela consegue enxergar o mundo dessa maneira (lembra a cena da árvore?), a porta não é sólida e ela pode ver através. O mesmo acontece quando ela consegue identificar os problemas de saúde da sua colega. Ela só precisou “ler” o que estava errado.
A série Through the Wormhole pergunta: Vamos virar Deus? Sobre esse assunto em particular vou falar no final do texto. Mas o interessante é que o episódio mostra muitos experimentos que estão nos aproximando dessa misteriosa “entidade” que rege ainda hoje muito do comportamento humano. Um exemplo é um engenheiro que está mudando o DNA de organismos vivos para fazer o que ele mandar. Seu trabalho está no estágio de organismos como fungos, mas isso é apenas o começo. É o lance das peças de lego que comentei anteriormente, mas no lugar de mudar a forma física, muda as diretrizes de “como agir” no DNA. Também somos apresentados à pesquisas e programas que são capazes de mover matéria com o pensamento e fazer transferência de pensamentos. De novo, esses experimentos estão em estados iniciais, mas no futuro poderia possibilitar que um indivíduo não tivesse problemas em passar por vários capangas e pegar uma maleta importantíssima sem mexer um músculo. Também que pudesse “entrar” na mente de outra pessoa para recolher informações.
Nesse momento, você já estará confortável com a experiência da Dupla Fenda, a qual demostra que as partículas podem estar em dois lugares ao mesmo tempo. Isso, junto com a Dualidade Onda-Partícula (a capacidade das partículas subatômicas se comportarem como onda e partícula), sugere algo que muda tudo: Nós, o observador, podemos alterar a realidade apenas olhando para ela. É aqui que entra aquele documentário que gerou certa polêmica em 2004, Quem Somos Nós. A trama traz especialistas de várias áreas, como física quântica, metafísica e psicologia para discutir esse assunto. Será que somos apenas peões que seguem o plano daquela “entidade”? Ou nós realmente criamos nossa realidade e destino? Muitos não gostam nem de pensar nessa possibilidade, pois coloca completamente a responsabilidade da sua vida e do mundo ao seu redor em suas mãos.
Entre outros conceitos, o documentário vai te mostrar aquele experimento da água que talvez você já tenha lido sobre. Ele foi criado inicialmente pelo japonês Masaru Emoto, o qual acreditava que as moléculas de água poderiam reagir a eventos não físicos. O resultado foi que os recipientes cheios de água estimulados com pensamentos positivos– como Obrigado e Eu te amo- formam moléculas (as quais foram fotografadas) de aspecto bonito, brilhante e simétrico; enquanto as estimuladas com pensamentos negativos criam algo feio e disforme.
Essa é mais uma prova que alterar (e reorganizar?) moléculas é um poder que já possuímos e pode ser manifestado sutilmente com a capacidade de 10%. Pense nas possibilidades que uma habilidade dessas desenvolvida pode trazer. Quem Somos Nós não foi criticado somente por apresentar ideias que nunca havíamos considerado. Mas porque acaba por misturar espiritualidade com a ciência. No 2×06 de TtW, o pesquisador que afirma que tudo não passa de informações e fórmulas matemáticas, faz uma consideração final: se tudo se resumir apenas à matemática, haverá um momento em que nós iremos bater em um muro. Uma linha que não tem como ir além. E quando esse muro chega, muitos acreditam que a espiritualidade é essencial para enxergar a figura maior. O filme de Luc Besson entra nessa área em sua parte final, e aqui também vou além. Irei apresentar um físico com especialização em astrofísica e cosmologia que já conseguiu elevar a espiritualidade no patamar da ciência numa teoria que vários cientistas tentaram rebater sem sucesso.
O professor Laércio Fonseca tem 9 livros publicados e mais de 250 vídeo-palestras editados em DVD e disponíveis no Youtube. Se o vídeo “O Espírito e a Física Quântica” não o fizer considerar o assunto, nada mais o fará. Nessa palestra de 1h30, Laércio fala sobre sua formação, dá um panorama sobre a física quântica mostrando seus problemas e começa a revelar como conseguiu introduzir a consciência (ou espírito) dentro da física quântica tradicional. Para saber mais sobre o assunto, seria necessário adquirir o curso completo em DVD e/ou seu livro. Mas eu vou te contar uma parte dessa teoria toda. Aquela que explica o final de Lucy.
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Laércio, junto com outros cientistas, biólogos e neurocirurgiões, acredita que a consciência nasceu antes do corpo físico, e que ela é independente do mesmo. Depois da morte, ela continua existindo. Mas o que é essa consciência? Como o final é a parte mais importante do filme, vou me estender um pouco nesse tema. Só pra você ver que legal é a sequência toda do fim. Para poder entender o motivo da Lucy desaparecer no final e virar Deus (oi?), temos que analisar dois conceitos. O primeiro é o Entrelaçamento Quântico, o qual permite que dois ou mais objetos estejam ligados independente da sua distância. Se você dá algum estímulo a um desses objetos, o outro vai corresponder instantaneamente – sem nenhum sinal ser trocado. Essa seria a base de fenômenos como cura à distância ou explicações de como extraterrestes conseguiriam chegar na Terra mesmo tendo seu planeta de origem a milhões de anos luz. Mas não é nesse ponto que eu quero chegar. Laércio coloca que no início – antes do Big Bang – toda a matéria estava acumulada em um único ponto. Isso quer dizer que tudo que estava ali está correlacionado. Quando a grande explosão aconteceu, o universo expandiu de maneira vasta, mas tudo continuou correlacionado, pois “tempo” e espaço não conseguem quebrar essa ligação. Temos aqui a Teoria da Unidade: tudo está relacionado.
O segundo conceito, e o mais importante, é o do Campo. A lei da Interação Eletrostática prevê o campo ao redor do elétron, e sua própria fórmula mostra que esse campo é infinito. Einstein afirmava que a única realidade que existe no cosmos é o campo, e que as partículas não passam de concentrações locais desse campo. Ou seja, tudo é campo e está conectado. Para que exista essa concentração, é necessário que o elétron oscile, que ele vibre. Einstein não sabia o que exatamente oscilava. Laércio diz que é o campo em si que vibra. Utilizando equações de físicos tradicionais, o professor mostra que a massa de um objeto é igual a uma constante vezes uma frequência. Então dependendo da sua frequência, o elétron consegue se estabilizar com uma nova massa. Laércio vai se apossar então do modelo de Bohr, mas colocando diferentes níveis para a massa do objeto. Se a frequência diminui, o comprimento de onda aumenta, tornando a solidez algo menos perceptível. Há vários níveis de densidade até a frequência chegar a zero e a vibração parar, fazendo com que o objeto seja parte do campo não materializado novamente. Essa teoria forma os universos paralelos e outras dimensões, inclusive os chamados planos espirituais. Os espíritos seriam uma consciência em outro plano menos denso que o nosso, fazendo com que eles não sejam visíveis para nós.
Tendo tudo isso em mente, podemos finalmente seguir para o final do filme. O que acontece quando há a explosão da bazuca é que a consciência de Lucy é atirada para fora de seu corpo biológico. Como o tempo não é uma realidade do universo, e ela é agora apenas consciência no cosmos, ela tem noção de tudo que já foi, é e será na história do nosso planeta. No caso da sequência de Besson, ele achou melhor explorar a visão dela apenas do passado. E como um bloco de conhecimento não ficaria bonito na tela do cinema, ele a fez testemunhar a história como se estivesse dando o comando de voltar a uma interface invisível.
Nesse momento, Lucy já deixou de ser um humano normal há muito tempo, assim como parou de vibrar como um. Houve uma grande liberação de energia pela sua boca, e o remanescente está sendo usado para a fabricação do pen drive super poderoso. Seu corpo está aos poucos parando de vibrar na mesma frequência do planeta Terra, até que finalmente, ele para. O que acontece quando a frequência chega em zero? O objeto vira campo. Lucy voltou a ser o campo imaterial que está presente em todos os cantos do universo. Ela está em todo o lugar.“Mas você disse que ela virava Deus no fim!”. Pois então. Muitos acreditam que todo esse campo é uma entidade consciente. A única consciência que existia antes do Big Bang e aquela que está presente atualmente em todo o lugar. Essas pessoas chamam esse campo de Deus. A energia onisciente. Por isso a Bíblia diz que Deus está dentro de nós. Se o campo é Deus e todos os objetos são manifestações de campo, nós somos basicamente Deus também. Só que em um nível vibratório afastado da energia pura que “Ele” é. Quando Lucy se desfaz do corpo físico e passa a vibrar numa frequência diferente, ou melhor, passa a não vibrar, ela faz parte do todo. Ela estica seu dedo para tocar numa criatura mais densa e com menos conhecimento do cosmos. Assim como a pintura da capela Sistina.
É por isso também que em certa parte do filme ela diz que ser humano é algo primitivo. Todos nós, todas nossas consciências, pertencem a esse lugar onisciente – sem certos sentimentos e sensações. O corpo humano biológico é primitivo (como o de todos os animais), e quando a consciência se junta com o corpo, ela esquece o conhecimento que tinha antes e experiencia as características do ser denso com seus padrões de comportamento existentes em toda a vida terrestre (lembra dos inserts da vida animal no começo do filme?). Ao se afastar dos obstáculos da biologia e se aproximar do conhecimento universal, você se torna um ser “ascendido”, que acaba por perder a característica da humanidade (para o melhor ou pior).
Então o objetivo de “passar informação para frente” é coerente nessa visão. Você eleva o nível da sua consciência com o conhecimento aprendido, e o passa para frente para que os outros possam fazer o mesmo. Louco tudo isso, né? E olha que esse texto enorme é a parte mais superficial do topo do iceberg. Quando você começa a mergulhar no mundo da física quântica, as coisas ficam cada vez mais bizarras. Mas não significa que deixe de ser real (dai a gente começa a debater o que é o real). Espero ter clarificado um pouco das ideias envolvidas no filme, e que tenha despertado certa curiosidade para saber mais sobre o assunto. Se mesmo assim você achou Lucy uma porcaria (e esse texto também), OK. É a opinião de cada um. Embora sinceramente espero que não seja o caso :).
Via http://www.ligadoemserie.com.br/2014/09/ensaio-lucy/

2 comentários:

  1. Parabéns pelo texto!!! Eu já vi muitos vídeos do Laércio e te digo - é a verdade. A parte da quântica pra mim ainda é meio complicada mas explicado da sua forma ficou bem nítida a relação com o filme, e definitivamente eu venho procurando a explicação para esses fenomenos do filme desde o lançamento e vc esclareceu!!! Parabéns pelo texto. Add a favoritos :)

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  2. Simplesmente fantástico! Eu tenho pouco conhecimento sobre essas idéias... Mas parece que tenho domínio sobre o conceito necessário - física moderna, modelos atômicos - para mudar essa realidade... Enfim, realmente despertou meu interesse e agradeço a esse texto que já o critiquei como simplesmente fantástico!

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